
Musa gay do Pará brilha no Rec-Beat
A divertida Gabi Amarantos foi um dos destaques das duas ótimas primeiras noites do evento dentro do carnaval do Recife
Lauro Lisboa Garcia
Tecno-brega do Pará, rock instrumental do Recife, pop-samba-dub da ponte Bahia-Rio, cumbia underground da Colômbia, hip-hop de Minas Gerais, blues do Mississippi. O democrático leque sonoro da 15ª edição do festival Rec-Beat trouxe bons ares novidadeiros à programação do Carnaval Multicultural do Recife. O público recebeu as atrações com interesse e entusiasmo crescente, principalmente na noite de anteontem.
Definida por alguém nos bastidores como um “misto de Tina Turner com Tati Quebra-Barraco”, a paraense Gabi Amarantos ganhou a galera com seu tecno-brega (“ou tecno-melody, podem chamar como quiserem”), encerrando a programação da segunda noite, já na madrugada de ontem. Carismática, esperta, agitada, provocativa, divertida, dona de um vozeirão tipo Alcione, Gabi ficou tão empolgada com o público que quase desceu no meio dele. Encerrou o show repetindo o início, o que contribuiu para fixar músicas como Beba Doida, Tô Solteira e outras com direito a trejeitos de Beyoncé.
Numa de suas várias falas, no auge da empolgação, fez questão de afirmar o orgulho por sua origem (“Posso ter saído da floresta, mas a floresta nunca saiu de mim”), a gratidão pelo público gay (“Eles me elegeram a rainha GLS de Belém”) e se atribuiu o crédito de pioneira por mesclar carimbó com tecno-brega. Claro que ninguém parou de dançar e sorrir para ela o tempo todo. “Sabia que Recife ia ter um papel decisivo na minha vida e isso está começando hoje. E vocês estão fazendo essa história comigo”, disse, para arrebatamento geral do público que lotou o Cais da Alfândega.
Em sistema sonoro semelhante, misturando programações de DJ com vocal e instrumentos convencionais, mas sem empolgar tanto, antes dela se apresentou o projeto eletrônico argentino King Coya + La Yegros. Até que eles têm um pé no tecno-brega, só que com acento mais latino/caribenho.
Nada mais contrastante com o blues tradicional do Mississippi de Magic Slim, que os antecedeu. Anunciado como “uma das últimas lendas vivas do blues”, o guitarrista provocou reação calorosa da plateia no primeiro toque da palheta. Acompanhado de um trio de baixo, guitarra e bateria – banda formada por dois argentinos e um brasileiro para a turnê sul-americana do músico – e andando com certa dificuldade, o veterano blues man tocou sentado. Fez um show curto e preciso, soltando o vozeirão potente, tocando clássicos como Mustang Sally e Before You Accuse Me. No dia 26 eles tocam no Sesc Vila Mariana.
Das duas atrações pernambucanas do domingão, a mais popular é a Volver, que faz rock com um pé no brega, com letras de amor e algo de Los Hermanos. Bacana, mas surpreendente mesmo foi A Banda de Joseph Tourton, de rock instrumental digno da bem-vinda onda que cresce no Brasil. O mais “velho” integrante tem 20 anos, mas o quinteto já faz um som bem desenvolvido, combinando hard-rock com elementos de ska, samba e toques experimentais. Depois de amanhã eles tocam no Sesc Pompeia, abrindo a primeira noite da versão paulistana do Rec-Beat, que terá também o argentino Kevin Johansen.
Na noite de sábado, abriu o festival outra banda instrumental do Recife igualmente promissora, o trio Radistae, que tem influências da surf music. Por problemas técnicos, o show da banda teve de acabar antes do previsto, mas o produtor Antonio Gutierrez, o Gutie, prometeu convidá-los de novo para a próxima edição, para compensar a perda. Os ótimos vídeos da VJ Milena Sá, que fizeram toda a diferença nos shows de domingo, também não puderam ser projetados no sábado, por problemas burocráticos alheios a ela e à produção do festival.
Os vídeos fizeram falta principalmente no ótimo show de Lucas Santtana, que teve de mudar todo projeto de luz por conta desse problema. Tanto Lucas como o rapper mineiro Renegado foram conquistando o público gradativamente e certamente saíram daqui com um número maior de fãs. Com seu mix de dub, samba, rock e outras soluções retumbantes e inteligentes, Lucas pegou mais pesado do que no show de dezembro na Feira Música Brasil.
Renegado surgiu revigorado com uma banda nova (este foi o segundo show com essa formação) e também veio com uma pegada mais pulsante, liquidificando seu rap melodioso com cores de rock, samba e soul. Aliados a essa potência, seu carisma e sua sinceridade contribuíram para ter o público nas mãos.
Outra jovem atração pernambucana, Zé Manoel, de Petrolina, ainda não tem um projeto sonoro definido, revelando influências de Chico Buarque e Clube da Esquina, entre outros, mas o compositor e pianista também conquistou pela sinceridade e pela simpatia. E foi corajoso ao tocar uma valsa em pleno carnaval, em momento solo, dispensando a banda.
Encerrando a noite de sábado, os colombianos do Puerto Candelária também tiveram seu momento de glória, fazendo com muito humor o que eles chamam de “cumbia underground”, com elementos de ska e punk. Antes, a banda era mais jazzística, agora, como disse o produtor nos bastidores, está mais pop, virou “mais espetáculo”. Foi bem divertido.
Nesse quesito, porém, imbatível é o bloco Quanta Ladeira, que fez sua “bagunça entre amigos” – com Lula Queiroga, China, Silvério Pessoa, Júnio Barreto, Luciano Queiroga -, recebendo Thalma de Freitas e Fernanda Takai, na tarde do domingo. Em suas impagáveis paródias, os principais alvos foram os políticos como José Serra, Dilma Rousseff, José Roberto Arruda e o prefeito do Recife, João da Costa.